Mulheres no terror: por que a figura feminina é tão associada ao horror?

Por Ana Clara Ribeiro/Red.Matriz

(Sissy Spacek como Carrie White em Carrie, A Estranha (1976) de Brian de Palma)

Aproveitando a época de horrores que foi esse último mês de outubro, surgiu um questionamento: por que existem tantas mulheres como figuras centrais nas narrativas dos filmes de terror? Será que a maneira que elas são representadas evoluiu ou ainda é preciso melhorar?

Não é surpresa para ninguém que o cinema vive dos tropes, os famosos clichês, e neste gênero, as personagens femininas foram colocadas nessas caixinhas por muito tempo, rotuladas como donzelas que gritam, sobreviventes indefesas, pobres vítimas de possessão ou até mulheres monstruosas.

De Psicose a Obsessão, o gênero dos terror e suas subdivisões passaram por mudanças e atualizações, inclusive os arquétipos das personagens femininas. A participação central feminina sempre gerou debates, principalmente quando o sofrimento é usado como recurso narrativo como impulso para a história, ou quando elas são retratadas indevidamente como fracas.

E por que há essas diferenças? A história explica.

Nos séculos XVIII e XIX, os estudos de ginecologia e a obstetrícia avançaram, e trouxeram consigo discussões das claras diferenças sexuais entre mulheres e homens, definido papéis que seriam considerados “naturais” para uma mulher desempenhar.

O conceito de feminilidade era determinado pela fertilidade. Trabalho de cuidado, menstruação e a própria função de reprodução diferenciava os atributos masculinos aos ditos atributos femininos. Para os homens há dominância e a agressividade, enquanto para mulheres apenas sobra a passividade, obediência e a suposta gentileza natural.

Mas o que isso tem a ver com os tipos de personagens femininas no terror?

Quando falamos de representatividade feminina, houve um longo caminho para que fossemos representadas a partir do nosso olhar, mas por anos, o olhar masculino prevaleceu em incontáveis mídias, e claro, no gênero de horror não poderia ser diferente. Dentro desse contexto, o sofrimento feminino ser transformado num espetáculo e entretenimento não é algo novo.

Scream Queens, sofrimento feminino e vítimas perfeitas

[Da esquerda para direita: (Primeira linha) Paula Maxa e Janet Leigh, (Segunda linha) Jamie Lee Curtis e Marilyn Burns.]

Scream Queens, ou na tradução livre “Rainhas do Grito”, é um título para atrizes que interpretam personagens principais ou centrais de filmes de horror populares entre os anos 30 e 70.

Donzelas em perigo e indefesas, que ficam amedrontadas, gritam e são vítimas perfeitas, o tipo de mulher mais representado na época (quando não eram vilanizadas na forma de femme fatale), existem desde o teatro e os filmes mudos.

Como dito anteriormente, o sofrimento feminino era uma forma de entretenimento graças ao olhar masculino, Paula Maxa, atriz de teatro famosa nos anos 10 e 20, a Scream Queen original, já foi nomeada a atriz que mais morreu em suas produções.

Você lembra de Janet Leigh, ou melhor, Marion Crane? Talvez por nome não, mas e se eu citar a mulher que grita no chuveiro enquanto é esfaqueada com uma música macabra no fundo? Pois é, a cena mais icônica de Psicose (1960) de Alfred Hitchcock, ninguém lembra de quem é Marion, mas sim da cena onde ela é assassinada.

Infelizmente quando é colocado em análise, mulheres são muito mais degradadas do que os homens nesses filmes, colocando-as na caixa do “sexo frágil”, ou seja, retratadas como fracas e burras, onde não conseguem correr do assassino sem tropeçar.

Isso começou a mudar nos anos 70, quando o Massacre da Serra Elétrica (1974) foi lançado. Sally Hardesty apesar de sofrer o filme inteiro e não lutar contra Leatherface diretamente, ela resiste e escapa. Em contraponto, Laurie Strode de Halloween (1978),

já é uma evolução, com uma protagonista que não só resiste como luta fisicamente com o antagonista para se salvar, mas a história termina igual.

Ambas são salvas por homens no final.

Final Girls, sortudas ou sobreviventes?

(Da esquerda para direita: Sigourney Weaver como Ellen Ripley em Alien (1979), Heather Langenkamp como Nancy Thompson em A Hora do Pesadelo e Neve Campbell como Sidney Prescott da franquia Pânico)

Falando em Sally e Laurie, ambas as personagens são descritas como pioneiras no arquétipo da Final Girl.

Esse é um termo criado pela autora Carol J. Clover em seu livro Men, Women, and Chainsaws: Gender in the Modern Horror Film, que analisa todo o cenário em torno das mulheres no terror. Caracteriza a personagem que sobrevive a um ataque do assassino, sendo salva ou se salvando.

No entanto, aqui temos a narrativa no ponto de vista a partir da protagonista em vez do assassino, sempre mais esperta que o resto do elenco de personagens, característica que movimenta mais a narrativa.

Vemos assim avanços significativos para esse trope, com personagens cada vez mais inteligentes e ativas. Nancy Thompson quebra a cabeça para conseguir vencer Freddy Krueger em A Hora do Pesadelo, e Ellen Ripley de Alien, é mostrada como igual em relação aos seus colegas do gênero masculino da tripulação na nave, igualmente lutando por sua sobrevivência.

E ao longo dos anos, o papel da final girl foi evoluindo, permitindo que essas personagens demonstrem raiva e tenham verdadeiro instinto de sobrevivência, se salvando sozinhas.

Possessão como sinônimo de falta de controle e perda de autonomia

[Da esquerda para direita: Ellen Burstyn como Regan MacNeil (O Exorcista de 1976) e Inde Navarrete como Nikki de Obsession (2026)]

Você já deve ter visto algum filme com uma garota que começa a falar com uma voz estranha, o corpo se contorce, seu rosto se transforma e realiza comportamentos considerados impossíveis. Pois é, e assim descrevemos o trope mais conhecido do cinema.

As mulheres possuídas.

Como dito no início, o rótulo do “sexo frágil” se construiu na sociedade, mas ele é mais antigo que os estudos ginecológicos. A antiga Igreja Católica sempre inferiorizou as mulheres, as reprimindo como meros objetos de reprodução e cuidadoras, impondo que elas devem ficar em casa.

Mas aonde que a possessão entra nisso tudo?

Historicamente, a sociedade e a religião construíram a ideia de que as mulheres seriam mais “frágeis” física e mentalmente, tornando-se alvos simples para o sobrenatural, como se elas fossem mais propensas a serem corrompidas.

Assim voltamos para outro ponto citado sobre as primeiras final girls, o papel de salvador do homem, nesse caso ele quem vai purificar essa mulher ou garota, sendo padres ou exorcistas, reforçando ideologias já enraizadas, em que o homem é a figura de poder, controle e libertação na vida da mulher.

E a característica principal é justamente essa, usar dos papéis de gênero em favor da narrativa, não é esperado que uma garota seja agressiva e xingue, isso são comportamentos considerados “masculinos”. Portanto, um homem possuído não é tão chocante quanto uma mulher, por causa deste contraste, seu corpo deixa de obedecer às convenções sociais e se transforma em uma fonte de ameaça.

A possessão também se torna símbolo da perda da autonomia, onde essas personagens não são as mesmas e não conseguem ter o controle pois é tirado delas. Em Obsession (2026), a personagem Nikki muda drasticamente de personalidade a partir de um pedido mágico de Bear. O filme é uma grande reflexão sobre abuso e denuncia o comportamento tóxico do protagonista.

Monstruosidade Feminina, o corpo feminino como fonte de horror

[Da esquerda para direita: Mia Farrow (Bebê de Rosemary de 1968), Ingrid Pitt (The Vampire Lovers de 1970) e Sissy Spacek (Carrie, A Estranha de 1976).]

Do inglês, “monstrous feminine”, é um termo criado pela pesquisadora Barbara Creed, em seu livro de mesmo nome.

Usando o conceito de “abjeção” da filósofa Julia Kristeva, ela analisa como o cinema de terror constrói a figura feminina como monstruosa a partir de medos culturais relacionados ao corpo, à sexualidade, à maternidade e à autonomia das mulheres.

Em seu livro, Creed disserta tipos de situações onde mulheres são colocadas como monstruosas, mas vamos nos limitar a apenas três delas: mulher como útero monstruoso, como vampira e como bruxa.

A primeira representação está relacionada à gravidez, em especial a capacidade da mulher de reproduzir e dar à luz.

O útero, passa a ser apresentado como fonte de medo e horror. A gravidez e o parto são transformados em experiências aterrorizantes, simbolizando o receio cultural diante do poder feminino de gerar vida.

Em Bebê de Rosemary (1968), a gravidez de Rosemary, proveniente do literal capiroto, é retratada de forma pavorosamente grotesca, e quando o bebe nasce, ela se depara com uma aberração. Aqui o filme trabalha o medo da gravidez e da maternidade por meio da ideia de que o corpo da protagonista está envolvido em um processo reprodutivo que foge ao seu controle.

Em segunda análise, temos a vampira, que representa o medo da sexualidade feminina independente.

Ao contrário da mulher passiva e submissa, ela é muito mais loba, seduzindo e manipulando outras pessoas, rompendo com o estereótipo puro e comportamento feminino. Em Carmilla (1872), livro que posteriormente foi adaptado no cinema em 1970 como The Vampire Lovers, a personagem Carmilla é linda, sedutora e predadora, cuja relação com outras mulheres passa apenas da amizade para assumir características de desejo e intimidade.

E por último e mais emblemático, as bruxas.

A bruxa representa tudo que o que sociedade e as estruturas religiosas não conseguiam controlar numa mulher. Qualquer uma que demonstrasse conhecimento, liberdade, ou sedução demais era condenada à fogueira.

Carrie White, com uma mãe fanática religiosa dentro de casa, cresce extremamente reprimida, sem saber sobre menstruação ou seu próprio corpo, pois, a religião sempre tratou o corpo feminino como impuro e pecaminoso. No entanto, quando Carrie descobre sobre sua telecinese e começa a buscar conhecimento, ela desafia a mãe, ou melhor, a estrutura religiosa imposta.

Assim, dá pra observar que essa análise que a figura da mulher é uma representação dos conflitos culturais que controlam seu comportamento, expondo os preconceitos.

Então, afinal estamos no caminho certo?

Filmes mais recentes têm visado desconstruir estereótipos e atualizar tropes, assim quebrando paradigmas. Mulheres cada vez mais têm assumido papeis principais, tendo a oportunidade de ter um olhar mais preciso, e filmes como Acompanhante Perfeita e até o próprio Obsession são usados como denuncia, atualmente toxico é o novo terror.

No fim das contas, talvez uma das características mais interessantes do terror seja sua capacidade de transformar ansiedades sociais em imagens assustadoras de acordo com sua época, podendo ser usado pelo bem ou mal.

Mas então, gostou da análise? Já compartilhou desse questionamento?

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