O Rap como manifesto, escola e ferramenta de libertação

Por: Victoria Souza/Red.Matriz

“O sistema constrói o monstro e depois quer matar, Sem escola, sem comida, o que você quer exigir?” Frase forte, não acha? Um papo sobre como ao invés de políticas de bem-estar, o Estado escolhe ser punitivo, acelerando de maneira sistemática a população prisional. A balança da vida tende para um lado, pesa para o mais fraco. Parece rebuscado o suficiente para ser de Karl Marx, ninguém questiona o nascer do materialismo marxista. Mas, vem da periferia de São Paulo, com um estilo brutal do grupo de rap Facção Central, escrita por Eduardo Taddeo, homem preto, escritor, advogado, palestrante, rapper e ativista. O senso comum vende a ideia que o ensino só é válido se for difícil, querem afastar quem? A política só é levada a sério quando vem de um engravatado, é para quem se identificar então? A política é para quem então? Bora falar disso.

Linguagem de elite: A barreira que transforma conhecimento em luxo

O Brasil é o país da Bossa Nova, o Brasil é um país da vida mansa e “das coisas mais lindas e cheias de graça”. A identidade da música brasileira surge de um elite requintada, que esbanja felicidade e facilidade. 1% da população brasileira, segundo o G1, é considerada rica. Significa 212.071.951 brasileiros não têm conexão alguma com essa moleza, esse dinheiro. Essa riqueza é convertida em educação, livros longos, com conceitos que quem tem 4h de condução somadas não compreende. O conhecimento não tem onde florescer no concreto da desigualdade e dificuldade, o terreno é arenoso. Mesmo com a internet criando uma facilidade enorme de pesquisa, uma barreira linguística existe para aumentar o ego, deixando o conhecimento de classes em estado de artigo de luxo.

A falta de acesso sempre foi ligada a um sinônimo de burrice, só que sempre irão existir pessoas inconformadas, que tem vontade e vão falar. A dita música brasileira exclui a maior taxa de brasileiros, vindo como uma trilha sonora calma para uma rotina conturbada. Onde existe um Tom Jobim, de outros lado existem vários Eduardo’s Taddeu’s. A política dos brasileiros é o Rap.

De ritmo marginal a produto de vitrine: A trajetória do hip-hop

Antes de ser em português, o rap é uma sigla em inglês para Rythmes & Poetry – ritmo e poesia-. Nasce no Bronx, um bairro marcado pelo corre e perrengue em Nova York. A cena começou nas block parties, festas que só rodavam em galpões com os DJs brincando com ritmos e fazendo novas batidas. Os MCs surgem para animar a galera com jogos de palavras,o palco também é para apontar a violência e meter o dedo na ferida mesmo.


Passou anos sendo exclusivamente conhecido da periferia para periferia, camadas mais ricas queriam nem encostar nesse gênero musical. Como tudo nessa vida o mais rico quer para ele, nos anos de 1980 o ritmo estourou e virou moda entre a playboyzada. O rap foi com tudo para o comercial, produzindo diversos álbuns, com os MCs participando de programas de televisão.

E a política que trouxe o rap para o Brasil, encontrando as mesmas dificuldades, desigualdades e com uma juventude querendo falar. O brasileiro melhora tudo que pega, e o Rap ganha a essência das favelas e periferias, transformando em uma poesia pesada como a vivência.

Estrategicamente a educação não chega para todos, e acharam que isso iria cegar e calar. A vida é a escola, e a música chega como norteador. Sendo contribuinte para a formação crítica e social de jovens da periferia.

A verdadeira escola da juventude preta

O Rap é um instrumento para politizar, formar autoestima, refletir e superar. Diferente de outros gêneros musicais, o Rap é uma crônica da realidade que pega vivências pessoais do MC e molda para gerar ampla identificação, principalmente para a comunidade negra.

“O Rap foi o primeiro a me dizer que as coisas não estavam certas, que o mundo estava errado”

Jones Manoel, é uma figura emblemática no atual cenário da política brasileira. Um homem negro, professor de história, comunista e mestre em Serviços Socias. Sua presença pesa nos debates, seus argumentos são sempre corte tramontina – sem curva e direto ao ponto. O deputado veio de uma realidade em que a meritocracia não chegava a ele – se é que chega em alguém -, morrer de trabalhar e estudar não garantia riqueza ou sucesso. Essa consciência não chegou no formato convencional, mas sim pelas rimas fortes o bastante para quebrar os muros sociais.

Tupac Shakur, rapper que defendia a libertação negra, fim da desigualdade. Para ele, o hip-hop não é somente entretenimento, mas como ferramenta revolucionária. Com muito pesar, foi assassinado em 1996, e essa realidade conversava diretamente com a Jones Manoel que aos 11 anos teve seu pai morto pela milícia. O rap foi o caminho para a política.

O Rap como espaço seguro e voz que não se cala

Atualmente a cultura do hip-hop continua amplamente fortalecida em diversas raízes da sociedade. Atravessando barreiras de cor, classe e gênero e chegando na molecada da periferia que não tem quem se espelhar. Espaços de liberdade de expressão nascem, como as batalhas de rima.

As batalhas nascem em praças, estações de metrô, esquinas de pequenas e grandes cidades para jovens da periferia se reunirem para duelar. É uma manifestação da cultura negra, espaço seguro para expressar qualquer sentimento que a sociedade insiste em reprimir. Mais uma vez o rap sendo instrumento de ensino.

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