Por que assistir outras pessoas jogando se tornou entretenimento?

Por: Ane Caroline/ Red. Matriz

Já parou para pensar que pode passar horas assistindo alguém jogar um jogo que você nunca nem pretende jogar? E, ainda assim, se divertir com isso, torcer e querer acompanhar o próximo episódio daquela mesma pessoa jogando uma segunda, terceira, quarta, quantos episódios forem feitos da pessoa jogando aquele jogo?

É, eu sei, pode parecer estranho à primeira vista, entretanto esse comportamento se tornou bastante comum na internet. O streaming de games deixou de ser um conteúdo restrito aos fãs de videogame e passou a ocupar um espaço importante no entretenimento digital. Mas o que faz tanta gente gostar de assistir a outras pessoas jogando, mesmo sem participar diretamente da partida?

O número que ajuda a explicar esse fenômeno

Atualmente, milhões de pessoas acompanham partidas, campeonatos, transmissões ao vivo e séries completas de jogos sem necessariamente pegar em um controle. Para muita gente, assistir a gameplays já faz parte da rotina de entretenimento, assim como acompanhar uma série ou um canal no YouTube. Em alguns casos, o envolvimento com determinado jogo acontece inteiramente pela experiência de quem está jogando. (Um Gamer)

No Brasil, esse interesse também aparece nos números. Em outubro de 2025, o streamer Alanzoka ultrapassou aproximadamente , 8 milhões de seguidores na Twitch, ou seja, ele se tornou o mais seguido do país e ocupando a 16ª posição no ranking mundial da plataforma, segundo os dados citados pela Wikipedia. São milhões de pessoas acompanhando ele jogar, reagir e compartilhar suas experiências. E muitas delas voltam para assistir novamente.

Esse interesse também aparece em eventos presenciais. A Brasil Game Show (BGS), realizada em São Paulo entre os dias 9 e 12 de outubro de 2026, reúne um público que vai além dos jogadores. Há também fãs de streamers, criadores de conteúdo e comunidades que se formam em torno de jogos e personalidades da internet.

Isso deixa evidente que o universo gamer não se resume a jogar. Para muitos consumidores desse nicho, acompanhar quem joga já é uma experiência de entretenimento por si só.

A psicologia por trás de assistir a alguém jogar

Mesmo que se assemelhe a um hábito relativamente novo, a ideia de assistir outras pessoas jogando tem raízes antigas. Em Homo Ludens, o historiador Johan Huizinga discute como o jogo faz parte da cultura humana e como a competição também envolve quem acompanha os participantes. Uma reflexão semelhante aparece no texto “O voyeurismo nos games”, publicado no Medium pelo Game Clube, ao abordar o interesse do público em observar partidas e disputas.

A diferença é que, ao contrário de acompanhar uma competição em uma arena, hoje em dia nós podemos assistir a uma partida ao vivo pelo celular, conversar com outros espectadores no chat e acompanhar as reações de quem está jogando.

Existe também um componente emocional que se engloba nessa experiência. Quando um streamer leva um susto, erra uma jogada decisiva ou vence uma partida quase impossível, o público pode sentir tensão, surpresa, frustração e alegria junto com ele. Mesmo sem controlar o personagem, quem assiste se envolve com o que está acontecendo.

É uma combinação de identificação, expectativa e empatia que ajuda a explicar por que algumas transmissões conseguem prender a atenção por horas.

Por que assistir pode ser mais interessante do que jogar?

Nem todo mundo possui a mesma disponibilidade de tempo, disposição ou até mesmo recursos para jogar. Alguns games exigem equipamentos caros, muitas horas de dedicação ou habilidades que levam tempo para se desenvolver. Assistir a uma transmissão permite conhecer a história, acompanhar os desafios e se divertir sem precisar lidar diretamente com essas exigências.

Também existe a praticidade. Uma live pode acompanhar outras atividades do dia a dia, como estudar, trabalhar ou descansar antes de dormir. Em vez de precisar se dedicar integralmente a uma partida, o espectador pode consumir aquele conteúdo de maneira mais flexível.

E isso não  corresponde, necessariamente, à falta de interesse em jogar. Segundo dados apresentados pelo Um Gamer, cerca de 48% dos jogadores que investem valores elevados no hobby acompanham gameplays mensalmente. Logo, jogar e assistir não são comportamentos opostos. Muitas vezes, eles se complementam.

Para algumas pessoas, assistir é uma maneira de descobrir novos jogos, hobby, um meio de se distrair . Para outros, é uma maneira de aprender estratégias, conhecer histórias ou simplesmente aproveitar o humor e as reações de um criador de conteúdo.

O streamer também faz parte do espetáculo

Um dos aspectos mais que vale destacar desse fenômeno é que, o público não está ali apenas pelo jogo. Está ali pela pessoa que joga em si, isso acontece muitas vezes.

A personalidade do streamer, seu senso de humor, suas reações e até a maneira como lida com derrotas e vitórias fazem parte da experiência. Dois criadores podem transmitir o mesmo jogo e produzir conteúdos completamente diferentes, justamente porque cada um constrói sua própria relação com o público.

É por isso que algumas pessoas continuam acompanhando um streamer mesmo quando ele muda de jogo. O interesse deixa de estar exclusivamente na partida e passa a envolver também a personalidade, as histórias e a comunidade construídas ao redor daquela transmissão.

Esse comportamento também se conecta à circulação de conteúdo nas redes sociais. Momentos engraçados, sustos e jogadas inesperadas podem virar vídeos curtos no TikTok, no YouTube Shorts e em outras plataformas. Assim, alguém que nunca assistiu a uma live completa pode conhecer um criador por meio de um único clipe e acabar se tornando parte de seu público.

O relatório da Stepico sobre jogos populares para transmissões na Twitch em 2026 destaca a importância do potencial de determinados games para gerar momentos interessantes durante as lives. Essa capacidade de criar situações espontâneas e compartilháveis também influencia a maneira como os jogos são descobertos e divulgados na internet.

Na prática, o jogo continua sendo importante, todavia a experiência de assistir, reagir e compartilhar se tornou parte fundamental do entretenimento.

O que isso pode comunicar sobre a gente?

No fundo, assistir alguém jogar tem muito a ver com algo que fazemos  já há muito tempo: acompanhar outras pessoas em uma experiência, torcer por elas, compartilhar emoções e encontrar gente com interesses parecidos.

No passado, isso acontecia em arenas, teatros e estádios. Hoje, também acontece nas transmissões ao vivo, nos chats e nas comunidades digitais.

A tecnologia mudou o modo como nos reunimos, mas o desejo de pertencimento a algo que é  coletivo continua muito presente. Mesmo quando cada espectador está do outro lado da tela, existe a possibilidade de se sentir parte de um grupo, acompanhar uma história e criar vínculos com pessoas que compartilham os mesmos interesses.

Talvez seja justamente essa a resposta para a pergunta inicial. Nem sempre precisamos estar no controle para nos divertir. Às vezes, basta encontrar alguém que transforme uma partida em uma experiência que vale a pena acompanhar.

Curioso, né? Agora, da próxima vez que você passar horas assistindo a alguém jogar, já sabe que existe muito mais por trás desse hábito do que parece.

Você faz parte desse grupo que acompanha os streamers jogarem em transmissões? Se sim, qual o seu favorito? Conta para a gente nos comentários!

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