50 anos de história: O que é a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo?

Por Ana Clara Ribeiro/Red.Matriz

Quando pensamos em cinema, é comum lembrar dos grandes lançamentos de Hollywood, dos blockbusters, das grande bilheterias e das premiações internacionais.

Nos últimos anos, o cinema brasileiro teve cada vez mais destaque fora do Brasil, nos festivais europeus, ou até no Globo de Ouro e o Oscar recentemente, recebendo seu merecido prestígio. Mas dentro do Brasil, temos um dos festivais de cinema com mais notoriedade.

Este ano irá ocorrer a 50º edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, trazendo consigo uma bagagem histórica.

Realizada anualmente na capital de São Paulo, o evento seleciona salas de cinemas para suas exibições exclusivas de longas e curta metragens brasileiros e estrangeiros, um espaço para pequenos diretores mostrarem suas produções independentes, além de convidados especiais.

Inclusive, diretores renomados como Pedro Almodóvar, Quentin Tarantino, Francis Ford Coppola, Jafar Panahi e Manoel de Oliveira já deram as caras no festival. Em 2026, a edição começa nesta quinta-feira (15 de outubro) e finalizando no dia 29 de outubro, reunindo mais de 380 filmes de 93 países.

Mas como esse evento começou e por que ele se tornou tão importante para a cultura brasileira?

Cultura e resistência

(Leon Cakoff, idealizador do evento. (Foto: Greg Salibian / Folhapress)

A primeira edição do festival aconteceu em outubro de 1977, organizada pelo crítico e repórter Leon Cakoff no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP). Cakoff dirigia o Departamento de Cinema do museu desde 1974, e quando o MASP comemorava seus 30 anos de fundação, surgiu a ideia de realizar um festival, com convidados e sessões de filmes tanto nacionais quanto internacionais.

Mas não foi nenhum pouco fácil.

O Brasil nessa época estava passando pelo regime autoritário militar, que é conhecido pelas leis de censura, intensificadas pelo AI-5, restringindo a cultura e liberdade de expressão. Logo, o evento sofreu muito com filmes sendo barrados, mas mesmo com a censura, o festival atraiu muitos espectadores interessados pelas obras independentes que a mostra oferecia, sendo assim um ato de resistência em meio a um período tão opressor.

Ao passar dos anos, a quantidade de espectadores e exibidores foi crescente. Em sua primeira edição em 1977 aconteceu entre os dias 21 e 31 de outubro e apresentou filmes de diferentes nacionalidades ao público paulistano, a Mostra contava com 25 filmes de 16 países diferentes, além de alcançar um público de 15 mil pessoas.

Sob o lema “O público é o júri”, o melhor filme do festival era decidido pelo voto popular, os cinéfilos espectadores, ironicamente, em uma época como aquela, era a única votação democrática que estava disponível. E em sua quarta edição em 1980, a mostra passou a integrar dois prêmios: Um popular, mantendo a tradição, e outro com um júri especializado, ou seja, a crítica.

Já em 1983, na sua sétima edição e última sediada no MASP, o evento já contava com 64 filmes de 28 países diferentes e um público estimado de 30 mil pessoas. Depois disso, o festival expandiu para as salas de cinemas, e se tornou um evento independente que realiza as próprias exibições.

O festival desde então reúne produções de diferentes países, retrospectivas, homenagens a cineastas e filmes de realizadores consagrados e novos talentos. Assim, São Paulo ganhou um espaço importante para acompanhar tendências do cinema mundial e conhecer obras que nem sempre chegam ao grande circuito comercial.

Momentos memoráveis

Vale a pena destacar algumas edições, como a de 1992, onde Quentin Tarantino veio ao Brasil para exibir seu primeiro filme, Cães de Aluguel (1992) quando ele ainda estava começando na carreira de diretor.

(Da esquerda para a direita: Renata de Almeida, Maria de Medeiros e Quentin Tarantino na 16º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 1992.)

E mais, a edição de 1995, a inesquecível 19º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, simplesmente trouxe Pedro Almodóvar, que estava apresentando seu filme A Rosa do Meu Desejo (1995), estrelado por Rossy de Palma e Marisa Paredes que também estavam presentes, além de Manoel de Oliveira e Gabriel Figueroa.

A Mostra ampliou seu alcance em 1995 ao exibir parte da programação na televisão, primeiro pela TV Gazeta de São Paulo e, em seguida, em rede nacional pela TV Cultura.

(Rossy de Palma, Pedro Almodóvar, Marisa Paredes e Leon Cakoff em 1995 na 19º Mostra Internacional)

E uma curiosidade?

O festival nunca deixou de ser realizados, nem mesmo durante as censuras insistentes da ditadura militar, nem durante o Governo Collor com o confisco de poupanças (e consequentemente, o orçamento indo embora) e nem mesmo em meio pandemia de Covid-19 durante 2020 e 2021, sendo realizada online.

Leon Cakoff dirigiu o evento até 2010, em 2011 faleceu aos 65, uma semana antes da 35º edição que começaria dia 21 de outubro daquele mesmo ano. Desde esse ano, a produtora e cineasta Renata de Almeida, esposa de Cakoff, assumiu a gestão da Mostra.

Feliz 50 anos!

Como citado no início, a edição deste ano é especial, pois comemora os 50 anos de Mostra, e para comemorar, o site oficial do festival criou o Acervo, que reúne o material de todas as edições, posters, filmes apresentados, a programação completa e também quem estava no júri naquele ano. Além de documentar todos os diretores que já apresentaram suas respectivas obras.

E o que vem por aí?

O maior destaque dessa Mostra é a presença do diretor James Gray, que irá apresentar pela primeira vez seu filme Tigre de Papel no Brasil. Aclamado em Cannes, o filme distribuído pela Diamond Films, conta com Scarlett Johansson, Adam Driver e Miles Teller no elenco, e será o filme de abertura do festival.

Outros destaques de exibição são o mais novo filme do diretor japonês Kiyoshi Kurosawa, The Samurai and The Prisoner, também aclamado em Cannes, O Outro Lado das Redes Sociais de Aaron Sorkin, mesmo diretor de A Rede Social, e é claro, Feito Pipa, o nosso representante brasileiro para tentar uma vaga no Oscar, dirigido por Allan Deberton, com a presença de Yuri Gomes, Teca Pereira e o grandiosíssimo Lázaro Ramos.

O que acha? Ficou interessado em algum desses filmes? Tem alguma edição que não pode faltar como memorável? Conta pra gente!

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