Por Ane Caroline Alves/Red.Matriz
Se você estuda Comunicação ou simplesmente é antenado com os grandes eventos, muito provavelmente já ouviu falar do Rock in Rio incontáveis vezes. Talvez já tenha acompanhado algum show, esperado meses por um line-up ou até mesmo visto a Cidade do Rock dominar as redes sociais durante os dias do festival.
No entanto, existe uma outra maneira de observar tudo isso.
E se, apenas por alguns momentos, deixássemos de associar o evento aos shows, abandonássemos essa vertente por enquanto e parássemos para analisar o que acontece ao redor deles?
O Rock in Rio é sobre música, claro. Isso nós já sabemos. Todavia, também é uma experiência que envolve muita publicidade, relacionamentos, planejamento, patrocínio e, principalmente, reúne diferentes comunidades.
A cada edição, o festival se conecta com públicos das mais diferentes características, gera motivação suficiente para que as pessoas acompanhem o evento mesmo antes de ele começar, faz com que os patrocinadores sejam parte da experiência e faz com que aquilo que acontece na Cidade do Rock continue circulando na mídia mesmo após o evento terminar.
É por isso que, para quem estuda Comunicação, o Rock in Rio pode ser percebido como um grande laboratório a céu aberto.
De uma ideia considerada impossível, um dia existente apenas na mente de um publicitário, a uma marca concretizada, consolidada e global.
Para compreender como nasceu essa comunicação, é necessário voltar no tempo, para o ano de 1985.
O cenário do Brasil era o de um país que estava saindo de mais de duas décadas de ditadura militar e ainda não fazia parte da rota de grandes shows internacionais. Não havia demanda suficiente para que isso acontecesse por aqui, pelo menos não naquela realidade.
Foi nesse mesmo cenário que o publicitário e empresário Roberto Medina idealizou o Rock in Rio.
A primeira edição aconteceu durante dez dias e recebeu cerca de 1,38 milhão de pessoas. Foram 15 atrações nacionais e 16 internacionais, em uma Cidade do Rock construída especialmente para o evento.
Naquele contexto, o festival não estava apenas trazendo grandes artistas para o Brasil. Ele estava comercializando uma única ideia: a de que o país poderia receber um evento de entretenimento de grandes proporções e de calibre internacional.
Existe um detalhe que ajuda a entender o tamanho da experiência criada em 1985: foi a primeira vez que aquela ideia saiu da cabeça de seu criador e uma plateia de um grande show foi iluminada, incluindo o público como parte do grande espetáculo.
Isso quer dizer que, desde o começo, a experiência não estava limitada ao que acontecia no palco.
A marca cresceu, atravessou fronteiras e levou o conceito do festival para outros países, como Portugal e Espanha. Mais de quatro décadas depois, a proposta continua crescendo e sendo ampliada a cada nova edição.
O Rock in Rio deixou de ser só sobre rock
Talvez uma das maiores transformações do festival esteja justamente no nome.
Se, em 1985, o gênero que dominava era o rock, sendo ele o centro da proposta, hoje o Rock in Rio reúne uma quantidade muito maior de gêneros, artistas, públicos e comunidades das mais variadas.
Entre eles está o gênero pioneiro, o rock, mas também o pop, a música brasileira, o eletrônico, o rap, o funk, o sertanejo e, agora, o K-pop, que convivem dentro da mesma Cidade do Rock.
Isso não quer dizer simplesmente adicionar outros estilos musicais à programação. Existe uma estratégia de curadoria atenta nos bastidores.
Um festival precisa continuar reconhecível sem ficar estagnado em seus moldes primordiais. Ele precisa manter quem já acompanha a marca há décadas e, ao mesmo tempo, encontrar formas de conversar com as gerações que foram surgindo nos anos seguintes à criação do Rock in Rio.
É aí que entra uma questão familiar para quem trabalha com Comunicação: como ampliar um público sem perder a identidade e a ideia inicial da marca?
O Rock in Rio vem respondendo a essa pergunta por meio da diversidade de sua programação e da criação de diferentes espaços e experiências dentro do próprio festival.
2026: quando o K-pop chegou à Cidade do Rock
A edição de 2026 deixou essa estratégia ainda mais clara.
Realizado nos dias 4, 5, 6, 7, 11, 12 e 13 de setembro, o festival reuniu mais de 700 mil pessoas, 190 shows e mais de 1.300 artistas, segundo a organização. Foram sete dias passando por diferentes gêneros musicais, do rock ao pop, passando pelo eletrônico e pela música brasileira, chegando até mesmo ao K-pop.
E provavelmente um dos maiores símbolos dessa expansão tenha sido a chegada do K-pop ao Palco Mundo.
O Stray Kids fez sua estreia no festival ao lado de Hwasa e NEXZ, levando para a Cidade do Rock uma comunidade de fãs que já possui uma cultura própria, forte presença digital e alto poder de mobilização.
Para a Comunicação, isso é especialmente interessante.
A cultura de fandoms não é somente um grupo de pessoas que gosta do mesmo artista. Trata-se de diversas comunidades que criam conteúdos, compartilham informações, produzem memes, organizam mutirões, acompanham tendências e transformam acontecimentos em conversas que ultrapassam o evento físico.
Quando uma marca consegue se incluir como parte dessa conversa de maneira realmente relevante, ela não está apenas anunciando alguma coisa. Ela está entrando em uma comunidade, em todo um universo novo, com suas próprias peculiaridades que tornam aquilo único para as pessoas inseridas ali.
E essa lógica nos auxilia a explicar por que a chegada do K-pop não é somente uma escolha musical aleatória, mas também uma escolha de comunicação.
Sete dias, sete narrativas
Outra característica interessante e de muita importância do Rock in Rio deste ano foi a maneira como cada dia criou sua própria identidade. Nenhum dia foi igual ao outro; cada um foi único e memorável à sua própria maneira.
O primeiro fim de semana começou com nomes como Foo Fighters, The Hives, Rise Against, Nova Twins, Avenged Sevenfold, Bring Me The Horizon e Sepultura.
Depois vieram dias marcados pelo pop, eletrônico e encontros entre gerações, com nomes como Calvin Harris, Black Eyed Peas, Nelly, Elton John, Gilberto Gil e Jon Batiste.
Já no segundo fim de semana, a chegada do K-pop protagonizou um dos dias, juntamente com outras atrações como Alok, Maroon 5, Demi Lovato, J Balvin, Pedro Sampaio, Twenty One Pilots, Halsey, Lola Young e Ivete Sangalo.
Na prática, são várias portas abertas para a atuação de uma única marca.
Uma pessoa pode chegar ao Rock in Rio pelo rock. Outra, pelo pop. Outra, pelo K-pop. Outra, pela música brasileira. Outra, pelas experiências de marca.
Mas o produto é o mesmo. O que muda é a narrativa.
E o público também vira mídia.
Atualmente, ninguém precisa esperar o festival acabar para descobrir o que aconteceu enquanto ele rolava.
Um show acontece e, segundos depois, já existem vários registros, de vários ângulos: vídeos, fotos, memes, cortes, comentários, hashtags e reações, todos circulando pelas redes sociais.
O público, hoje em dia, não é mais apenas receptor. Ele também produz conteúdo.
E essa transformação é extremamente importante para entendermos a comunicação de grandes eventos atualmente. A experiência já começa antes da entrada na Cidade do Rock e continua depois que o artista deixa o palco. Ela já não se resume necessariamente a estar fisicamente na Cidade do Rock.
O próprio Rock in Rio trabalha essa linha de raciocínio no cenário digital. Neste ano de 2026, por exemplo, o aplicativo oficial permitiu que o público montasse sua própria agenda e compartilhasse a programação diretamente no Instagram. O app também concentrou informações essenciais sobre mapa, transporte, lockers, acessibilidade e ativações de marcas.
É o famoso omnichannel acontecendo de maneira bastante concreta, diante dos nossos olhos: o digital não existe separado da experiência física. Ele ajuda a preparar, orientar, registrar e prolongar a experiência.
Quando o patrocinador deixa de ser apenas um logo
Aqui entra a parte que interessa especialmente aos futuros publicitários.
Imagine comprar um ingresso para um festival e encontrar dezenas de marcas espalhadas pela Cidade do Rock. Imaginou?
Pois é.
O desafio dessas empresas não é simplesmente aparecer. Se a marca fica apenas em um banner, ela pode até ser vista. Mas será que será lembrada?
É exatamente por isso que grandes eventos trabalham cada vez mais com ativações.
Em 2026, o Rock in Rio anunciou mais de 100 ativações e cerca de 8 mil horas de experiências de marcas, além de aproximadamente 1 milhão de brindes. A edição também contou com cerca de 90 marcas parceiras e aproximadamente 400 produtos licenciados.
É uma mudança importante na lógica estratégica da publicidade.
Não é apenas “olhe para a minha marca”. A experiência busca criar interação entre público e marca.
Seja em uma fotografia, um brinde, uma experiência imersiva, um jogo, uma ação nas redes ou simplesmente uma situação que renda uma história para contar depois do festival, tudo isso pode transformar a marca em parte da memória afetiva daquele dia.
É o famoso Brand Experience saindo do PowerPoint e ocupando a Cidade do Rock.
Relações Públicas também nascem no meio da música
Se a publicidade ajuda as marcas a criarem experiências, as Relações Públicas buscam ajudar a organizar as relações que tornam um evento desse tamanho possível.
Artistas, imprensa, patrocinadores, parceiros, fornecedores, público, órgãos públicos, influenciadores e comunidades também precisam estar alinhados, criando conexões entre si.
Existe ainda uma característica própria de eventos gigantes: tudo pode mudar em um piscar de olhos.
Uma alteração de programação aqui, um problema operacional ali, uma mudança climática, uma questão de segurança ou qualquer outro imprevisto pode rapidamente virar assunto e gerar debates intermináveis nas redes sociais.
E é justamente por isso que a comunicação de um evento não termina quando começa o show.
Na verdade, é justamente nesse momento que ela é colocada à prova.
A comunicação de imprensa também é parte do espetáculo
O Rock in Rio não gera repercussão apenas porque grandes artistas se apresentam, trazendo grandes performances, estruturas, momentos ou conexão com seus públicos. O próprio festival gera debates.
Existe a cobertura dos shows, entretanto, há também espaço para falar de outros assuntos: comportamento, turismo, economia, moda, tecnologia, sustentabilidade, cultura, fandoms e backstage.
Um exemplo é a edição de 2024. Naquele ano, o festival comemorou seu aniversário de 40 anos, recebendo 730 mil pessoas. A programação teve mais de 750 artistas e cerca de 500 horas de experiências. O chamado Dia Brasil reuniu exclusivamente artistas brasileiros, criando uma narrativa própria dentro da edição comemorativa.
Isso ressalta como uma propriedade de entretenimento pode gerar conteúdo para diferentes editorias e públicos.
O festival fornece o acontecimento.
A comunicação encontra diferentes histórias dentro dele.
A marca também precisa ter um propósito
Outro elemento que passou a ocupar um espaço grande e fundamental na identidade do Rock in Rio é o projeto “Por Um Mundo Melhor”.
A iniciativa reúne ações relacionadas à sustentabilidade, educação, inclusão e impacto social e ambiental. De acordo com a organização, entre seus projetos estão ações de plantio de árvores, educação ambiental, reaproveitamento de materiais e iniciativas sociais.
Em 2024, o festival realizou mais uma edição do leilão Fans For Change, com itens autografados e utilizados por artistas. A arrecadação foi destinada a organizações sociais, e a iniciativa já havia levantado mais de R$ 1,1 milhão até aquele momento, segundo o próprio festival.
Para quem estuda Comunicação, existe uma questão interessante levantada aí: quando uma marca fala sobre propósito, ela não está apenas criando uma campanha. Ela também passa a ser observada pela coerência entre o discurso e aquilo que faz.
Isso quer dizer que propósito também é relacionamento.
Da Cidade do Rock para a cultura pop
É correto dizer que é justamente essa uma das grandes forças do Rock in Rio como objeto de estudo.
Ele não depende exclusivamente de um show para continuar fortalecendo sua relevância.
A própria marca trabalha a criação de expectativa antes do festival, movimenta conversas durante o evento e continua gerando conteúdo depois. Ou seja, line-up vira assunto, fãs viram produtores de conteúdo, marcas criam novas experiências, veículos de comunicação encontram novas pautas, artistas chegam a novos públicos e as redes sociais viram palco para tudo isso, em uma conversa que não fica restrita apenas à Cidade do Rock.
Na edição realizada em 2024, o próprio festival registrou sua presença digital, contando com mais de 146 milhões de pessoas alcançadas nas redes sociais.
Uma verdadeira cadeia e um prato cheio de comunicação que se retroalimenta.
O que nós, enquanto futuros profissionais de Comunicação, podemos tirar de lição desse laboratório cheio de possibilidades que é o Rock in Rio?
Mais do que decorar datas, números ou line-ups, observar o Rock in Rio como um estudo de caso nos permite perceber como diferentes áreas da Comunicação trabalham em conjunto para que ele possa acontecer da forma que conhecemos há décadas.
A publicidade aparece nas campanhas, nos patrocínios, nas ativações e na construção de marca.
Enquanto isso, os profissionais de Relações Públicas atuam na gestão dos públicos, no relacionamento com parceiros e imprensa e na construção da reputação.
O jornalismo faz a cobertura, a apuração e a transformação dos acontecimentos em notícia.
Mídia e planejamento estão presentes na distribuição de mensagens e na presença da marca em diferentes canais.
Os profissionais de Social Media fazem do evento uma experiência que continua acontecendo nas redes em tempo real.
A produção faz toda essa estrutura existir fisicamente.
E o Brand Experience conecta tudo isso em uma experiência que o público consegue viver, registrar e compartilhar.
No fim, essa é uma das principais lições que a Cidade do Rock tem para passar aos futuros comunicadores e às pessoas em geral: comunicação não acontece em uma única plataforma e muito menos em uma única profissão.
Ela surge quando todas essas pontas se conectam e passam a conseguir conversar em uma mesma língua.
Afinal, o que existe por trás de um grande festival?
Existe música.
Existe público.
Existem artistas.
Existe uma enorme operação de comunicação acontecendo o tempo inteiro.
O Rock in Rio começou em 1985 como uma aposta ousada em um país que ainda estava entrando no circuito internacional dos grandes shows. Quarenta e um anos depois, chegou à edição de 2026 reunindo diferentes gerações, gêneros e comunidades em uma mesma marca, incluindo, pela primeira vez, o K-pop no Palco Mundo.
Do rock ao pop, do eletrônico à música brasileira, dos fãs que acompanham o festival há décadas aos fandoms que chegaram agora, a Cidade do Rock continua fazendo uma coisa que toda boa comunicação precisa saber fazer:
Encontrar novos meios de se comunicar com as pessoas sem deixar de ser reconhecida por aquilo que a tornou uma marca, do jeito que é e do tamanho que é.
Trazendo música, novas experiências e memórias, uma coisa é certa: o Rock in Rio é um grande palco que celebra culturas, artes, diversidade, representatividade, laços afetivos e Comunicação em seus mais diferentes aspectos.
Mas e aí, qual foi o seu show favorito da edição deste ano e qual você estava mais ansioso para assistir? Conta para a gente nos comentários.
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