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Antes do “felizes para sempre”: a origem sombria dos clássicos da Disney

Por Emily Cristiny/Red.Matriz

Princesas, castelos, músicas impossíveis de tirar da cabeça e, claro, um final feliz. Para muita gente, foi assim que histórias como Cinderela, Branca de Neve e A Pequena Sereia entraram no imaginário. Mas, muito antes de ganharem cores vibrantes, animais falantes e números musicais, esses contos já circulavam há décadas ou até séculos, e algumas versões eram bem menos encantadoras do que aquelas que conhecemos.

Muitos dos clássicos popularizados pela Disney nasceram de contos populares europeus ou de obras literárias de autores como os Irmãos Grimm e Hans Christian Andersen. E se hoje essas histórias são associadas principalmente à infância, suas versões anteriores estavam recheadas de violência, perdas, punições e finais nada felizes.

Então, como histórias tão sombrias viraram alguns dos maiores símbolos da magia Disney?

Antes do Mickey, existiam os contos.

Os irmãos Jacob e Wilhelm Grimm ficaram conhecidos por reunir e registrar histórias que circulavam pela tradição oral europeia. Publicados a partir do início do século XIX, seus contos traziam elementos fantásticos, mas também refletiam medos, valores e problemas da sociedade de sua época.

E existe uma diferença importante aqui: os Grimm não simplesmente “inventaram” todas essas histórias. Muitas já eram contadas de geração em geração e ganharam diferentes versões antes e depois de serem registradas pelos irmãos.

Hans Christian Andersen seguiu outro caminho. O escritor dinamarquês criou diversos contos autorais que posteriormente se tornaram mundialmente conhecidos, como A Pequena Sereia, O Patinho Feio e A Rainha da Neve.

O detalhe é que Andersen aparentemente não recebeu o memorando de que histórias infantis precisavam terminar com todo mundo sorrindo.

Branca de Neve e a rainha que não aceitava perder.

Em 1937, Branca de Neve e os Sete Anões se tornou o primeiro longa-metragem de animação produzido pela Disney e ajudou a definir vários elementos que seriam associados às princesas do estúdio durante décadas.

Na história que conhecemos, a Rainha Má tenta matar Branca de Neve com uma maçã envenenada. A princesa é salva, o mal é derrotado e o famoso “felizes para sempre” entra em ação.

Na versão registrada pelos Irmãos Grimm, porém, a rainha faz mais de uma tentativa para matar a jovem antes de chegar à maçã. E o destino da vilã é consideravelmente mais brutal.

Ao final da história, ela é obrigada a usar sapatos de ferro aquecidos e dançar até morrer.

De repente, cair de um penhasco no desenho nem parece a pior opção.

Cinderela e o verdadeiro preço de um sapatinho.

A história de Cinderela existe em diferentes versões ao redor do mundo, mas uma das mais famosas foi registrada pelos Irmãos Grimm.

E o sapatinho perdido continua sendo importante. O problema começa quando as irmãs tentam fazê-lo servir.

Na versão dos Grimm, uma delas corta parte dos dedos do pé e a outra corta parte do calcanhar para conseguir encaixar o sapato. O plano seria perfeito, não fosse por pequenos detalhes como sangue e pássaros capazes de denunciar a fraude.

A punição também não termina por aí. Durante o casamento de Cinderela, as aves atacam as irmãs e deixam as duas cegas.

Na animação da Disney de 1950, as irmãs continuam sendo cruéis e invejosas, mas saem da história com os pés e os olhos intactos. Uma adaptação bastante generosa, considerando o material disponível.

Ariel quase não teve um final feliz

Talvez uma das maiores diferenças entre literatura e Disney esteja em A Pequena Sereia.

No filme de 1989, Ariel se apaixona pelo príncipe Eric, faz um acordo com Úrsula para ganhar pernas e, depois de enfrentar algumas complicações envolvendo magia, naufrágios e um crustáceo extremamente comprometido com sua carreira musical, consegue ficar com o príncipe.

O conto publicado por Hans Christian Andersen em 1837 é muito mais melancólico.

A pequena sereia também deseja viver entre os humanos e entrega sua voz em troca de pernas. Porém, cada passo que dá causa uma dor intensa. Além disso, sua transformação está ligada não apenas ao amor pelo príncipe, mas ao desejo de conquistar uma alma imortal.

E o romance não termina exatamente bem.

O príncipe se casa com outra mulher. A sereia recebe a oportunidade de matá-lo para recuperar sua antiga forma, mas decide não fazer isso. Seu destino segue então por um caminho espiritual completamente diferente daquele apresentado pela Disney.

Na adaptação, Ariel conquista o amor e uma nova vida. No conto, sua escolha está relacionada à sacrifício, sofrimento e redenção.

Convenhamos: “Parte do Seu Mundo” ficaria um pouco mais pesada se incluísse tudo isso.

Nem toda princesa teve uma única versão.

Outro detalhe interessante é que falar sobre a “história original” de um conto de fadas nem sempre é tão simples.

A Bela Adormecida, por exemplo, passou por diferentes autores e tradições antes de chegar à versão conhecida atualmente. Existem registros europeus anteriores aos contos dos Irmãos Grimm e de Charles Perrault com elementos muito mais violentos e perturbadores do que aqueles presentes na animação de 1959.

O mesmo acontece com várias histórias populares.

Contos eram recontados, modificados e adaptados de acordo com o lugar, a época e quem estava narrando. Por isso, muitas dessas histórias não possuem apenas uma versão definitiva, mas uma longa árvore de transformações.

E é exatamente aí que a Disney entra.

Por que a Disney mudou tanto essas histórias?

É fácil olhar para as diferenças e concluir que a Disney simplesmente retirou tudo que era sombrio e colocou uma música no lugar.

Mas a transformação é um pouco mais interessante.

As histórias antigas pertenciam a outro contexto. Medo, violência e punições eram frequentemente utilizados para transmitir valores, ensinar comportamentos e mostrar consequências. Quando essas narrativas chegaram ao cinema, precisavam conversar com outro público e funcionar dentro de uma linguagem completamente diferente.

A Disney manteve elementos reconhecíveis dos contos, como princesas, vilões, transformações e romances, mas colocou no centro temas como esperança, amizade, identidade, coragem e realização pessoal.

O resultado foi tão poderoso que, para milhões de pessoas, as adaptações acabaram se tornando mais conhecidas do que as próprias histórias que as inspiraram.

Quando alguém pensa em Cinderela, dificilmente a primeira imagem é uma garota cercada por pássaros vingativos. Provavelmente aparece um vestido azul, uma carruagem e um sapatinho de cristal.

Isso mostra o tamanho da influência que uma adaptação pode ter sobre o imaginário coletivo.

Afinal, quem é o dono do “felizes para sempre”?

Talvez o mais interessante dessas histórias seja perceber que elas nunca permaneceram iguais.

Antes de chegarem às telas, muitas passaram pela tradição oral, pela literatura e por diferentes escritores. Depois, foram transformadas novamente pelo cinema e continuam recebendo novas adaptações até hoje.

A Disney não criou a maioria desses contos, mas ajudou a construir as versões que marcaram gerações.

E talvez seja justamente essa capacidade de transformação que permita que histórias tão antigas continuem vivas. Cada época escolhe o que preservar, o que modificar e o que essas narrativas devem representar para um novo público.

Muito antes dos castelos, das princesas cantando com animais e do “felizes para sempre”, os contos de fadas já falavam sobre medo, amor, amadurecimento, desejo e perda.

A magia pode ter ficado mais colorida com o passar dos anos.

Mas, escondida em algum lugar atrás do pó de pirlimpimpim, a escuridão das histórias originais continua por lá.

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