Por Ana Lemos/Red.Matriz
Você sabia que, entre os dias 15 e 18 de agosto, exatamente nessa mesma semana, há algumas décadas, acontecia um dos festivais mais históricos do movimento da contracultura: o tão famoso Woodstock? O evento reuniu meio milhão de pessoas na fazenda de Bethel, em Nova York.
Mas o que quase ninguém comentou é que, no mesmo verão, tivemos outro festival, com viés político muito semelhante (mas voltado para a cultura negra), que acontecia a poucos quilômetros dali: o Festival Cultural do Harlem, popularmente conhecido como o “Woodstock Negro”. Só um detalhe: o festival começou antes e terminou depois do Woodstock. Por que, então, ficou conhecido como uma extensão dele? Não seria, então, o Woodstock o “Harlem Branco”?
Os movimentos hippie e beatnik focam muito em comunidades majoritariamente brancas, apesar de seus membros serem coerentes com a atividade antirracista, além do fato de que o rock n’ roll estava embranquecido devido ao surgimento de ídolos da classe média, como Elvis Presley, apagando as raízes negras da música.
Enquanto Woodstock ocorreu em quatro dias de shows, o Harlem aconteceu em seis fins de semana no Mount Morris Park. Foi idealizado pelo cantor e produtor Tony Lawrence, teve entrada gratuita e reuniu 300 mil pessoas. Foi um hit!
O festival não era apenas um encontro musical, mas uma resposta política e social necessária ao momento. O país ainda sangrava com as perdas recentes de Martin Luther King Jr. e Malcolm X, e o movimento pelos direitos civis buscava espaços de cura, exaltação da identidade e celebração da cultura preta. Estávamos no auge da campanha Black Power, presente nas roupas, cabelos, discursos, gestos… Uma afirmação positiva e linda da negritude.
Line-up do festival
Reuniram blues, rock, gospel, jazz e soul com o objetivo de enaltecer a cultura e os direitos da população negra.
Quer saber alguns dos artistas que fizeram parte disso tudo? Stevie Wonder, com apenas 19 anos, arrasou na bateria, Sly and the Family Stone, O REI B.B. King e NOSSA RAINHA Nina Simone também marcaram presença.
No gospel, tivemos uma performance conjunta de Mahalia Jackson e Mavis Staples cantando “Precious Lord, Take My Hand”.
O Resgate com Summer of Soul
Se o festival foi tão gigantesco quanto Woodstock, por que demorou tanto para o mundo saber disso? O produtor Hal Tulchin gravou mais de 40 horas de imagens profissionais do evento, mas os grandes estúdios e distribuidoras da época rejeitaram o material, pois, de acordo com eles, “shows com artistas negros não vendiam”. As fitas ficaram guardadas em um porão por uma cota (mais de meio século).
O resgate definitivo veio só em 2021, quando o músico e diretor Questlove transformou essas gravações no lindíssimo documentário Summer of Soul (…ou Quando a Revolução Não Pôde Ser Televisionada). O filme conquistou o Oscar de Melhor Documentário em 2022 e, principalmente, corrigiu uma grande lacuna da história da música, provando que o verão de 1969 teve não só um, como dois gigantescos episódios transformadores.
Curiosidades
Uma coisa inédita aconteceu: a segurança do evento ocorreu por uma parceria inédita entre os Black Panthers e a polícia local, garantindo um festival massivo sem nenhum registro de violência.
Você sabe o quão impossível isso seria em dias normais?
Um outro detalhe é que o criador e apresentador do festival, Tony Lawrence, tentou organizar uma nova edição em 1970. O evento foi boicotado após Lawrence denunciar que investidores brancos haviam fraudado o projeto e que a máfia teria sido contratada para ameaçá-lo de morte.
Enfim… Achei importante falar sobre esse evento, a ideia original era falar sobre o Woodstock, mas senti que o Harlem estava apagado na mente coletiva, apesar de carregar tanta história e poder dentro de si.
Tudo que envolve o Festival Cultural do Harlem expõe com clareza como a indústria cultural da época operou para selecionar quais narrativas mereciam ser eternizadas e quais deveriam ser empurradas para o esquecimento.
E agora, ao pensar sobre o apagamento desse festival, vocês entendem que chamar o evento de “Woodstock Negro” revela um viés eurocêntrico da historiografia musical.
O Festival Cultural do Harlem não foi uma sombra ou extensão de Woodstock; foi um marco autônomo, político e vibrante de celebração da identidade negra no coração dos Estados Unidos.
Inclusive, o documentário Summer of Soul (2021) não apenas devolveu ao público performances históricas de Nina Simone, Stevie Wonder e Mahalia Jackson, mas serviu como uma reparação histórica indispensável para a memória da cultura pop mundial…
Espero que tenham aprendido algo hoje, vejo vocês na próxima matéria!
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