Por Ane Caroline/Red.Matriz
Todo mundo já se pegou torcendo por um vilão em algum momento da vida. Seja o Coringa, Hannibal Lecter ou um personagem que, lá no fundo, você sabia que estava errado e ainda assim era impossível ignorar ou “odiar”.
A verdade é que os melhores vilões nunca foram sobre “o cara mau”. Eles existem para gerar em quem os lê ou os assiste uma pergunta incômoda: Qual motivo faz com que uma pessoa cruze a linha? Qual foi o limite cruzado que fez com que esse personagem se tornasse o vilão da narrativa apresentada ao público?
Essas perguntas acompanham a literatura há mais de dois mil anos.
O vilão nem sempre foi o vilão
Curiosamente, a palavra vilão não nasceu para ser sinônimo de maldade.
A palavra vilão vem do latim “villanus”, que se referia apenas ao morador de uma vila, uma propriedade rural. Era o camponês, alguém sem título de nobreza. Nada além disso.
Porém, com o passar dos séculos, mais especificamente durante a Idade Média, a visão da aristocracia, ou seja, a elite europeia, acabou mudando o significado da palavra para o que conhecemos nos dias atuais. Aos poucos, quem era visto como inferior socialmente, não possuía poder aquisitivo ou sangue nobre, passou a ser associado também à falta de caráter.
Não demorou para as más línguas fazerem o resto e o resultado disso foi uma transformação curiosa: um termo que antes descrevia uma classe social acabou se tornando sinônimo de julgamento moral. E, posteriormente, de alguém ruim.
Mas a literatura levou essa ideia para muito além.
O mal raramente nasce do nada. Quando pensamos nos grandes vilões da ficção, quase todos têm algo em comum: existe uma razão por trás que motiva as escolhas feitas por eles. Destrinchamos isso logo abaixo:
Medeia, da obra de Eurípides, é uma das personagens mais antigas da literatura ocidental. Na mitologia grega, ela era filha do rei Eetes, da Cólquida, neta do deus do sol Hélio, sobrinha de Circe e foi, por algum tempo, esposa de Jasão, o líder dos argonautas. Ela matou os próprios filhos para se vingar do marido, que a abandonou para se casar com outra, e por isso se tornou símbolo de vilania e vingança.
É impossível justificar seu ato, porém é impossível dizer que ela age sem motivo e talvez seja exatamente isso que a torna tão perturbadora. O leitor consegue enxergar de forma clara sua motivação, mesmo condenando suas atitudes.
Séculos depois, Shakespeare exploraria essa mesma ideia evidenciada no caso de Medeia em Otelo, o Mouro de Veneza (escrito por volta de 1603, primeira apresentação registrada como peça em novembro de 1604).
A obra narra a trágica história de um general mouro a serviço de Veneza que se casa secretamente com a jovem Desdêmona. O antagonista, Iago, movido pela inveja por ter sido preterido em uma promoção militar, arquiteta uma vingança implacável para destruir o casamento do líder. Ele manipula Otelo psicologicamente, fazendo-o acreditar que Desdêmona o trai com o jovem tenente Cássio, utilizando um lenço perdido como falsa prova do adultério. Consumido por um ciúme doentio e cego pela manipulação, Otelo assassina a esposa inocente na cama do casal. Logo após o crime, a farsa é descoberta, levando o general ao suicídio por remorso e à prisão de Iago.
Nesse caso da obra de Shakespeare, Iago não quer dominar o mundo. Não possui poderes sobrenaturais nem uma origem extraordinária para isso. Ele apenas tem a pura convicção de ter sofrido uma injustiça. Seu ressentimento cresce durante o desenrolar da história até se transformar numa necessidade de destruir quem está ao seu redor.
O mais assustador nisso é perceber que inveja, orgulho e desejo de vingança não são sentimentos exclusivos dos vilões. São emoções humanas que qualquer um de nós pode sentir em algum momento. A diferença está no que fazemos com elas.
No século XIX, os escritores deram mais um passo. Em vez de criar monstros para assustar, começaram a criar monstros para fazer reflexões.
Em Frankenstein, a autora Mary Shelley trouxe uma criatura que nasce inocente e aprende sobre o mundo da pior maneira possível: sofrendo rejeição.
O romance levanta um questionamento que se aplica à atualidade:
Será que alguém é realmente capaz de já nascer monstruoso ou se torna um monstro pela forma como é tratado?
Poucos anos depois, Bram Stoker criou outro personagem inesquecível: ele mesmo, o famoso Drácula.
Drácula continua sendo um símbolo do horror, todavia representa também desejos profundamente humanos: viver para sempre, acumular poder e controlar os outros.
O sobrenatural é usado apenas como disfarce para conflitos que continuam existindo fora da ficção.
O fascínio pelo lado sombrio
Se os vilões fazem tanto sucesso, é porque eles oferecem algo oposto ao que os heróis e os “mocinhos da narrativa” normalmente oferecem: complexidade.
Um estudo publicado na revista Psychological Science diz que personagens moralmente ambíguos despertam interesse no público porque permitem explorar emoções difíceis em um ambiente seguro.
Ao acompanhar uma história, podemos sentir várias coisas ao mesmo tempo, seja raiva, desejo de vingança ou ambição, sem transformar esses sentimentos em ações reais.
A ficção no geral, independentemente de ser literatura ou não, funciona como um laboratório da natureza humana. É ali que enfrentamos nossos impulsos mais obscuros sem precisar vivê-los.
É por isso que eles nunca saem de cena. Os heróis mudam conforme a época, e os vilões também.
Entretanto, os grandes clássicos permanecem porque continuam falando sobre conflitos que fazem parte da experiência humana.
Medeia fala sobre abandono.
Iago, sobre ressentimento.
A criatura de Frankenstein, sobre rejeição.
Drácula, sobre poder e desejo.
Todos eles mostram que o verdadeiro horror raramente está em monstros sobrenaturais; ele surge quando sentimentos humanos deixam de encontrar qualquer limite. E, quem sabe, seja por isso que continuamos tão fascinados por esses personagens que, querendo ou não, despertam tanto em nós mesmos.
No final, eles não servem apenas para enfrentar os heróis. Servem para lembrar que a linha entre o bem e o mal é frágil e que ambos coexistem há séculos.
Mas e aí, qual é o seu vilão favorito de todos os tempos e por que você ama odiá-lo? Conta pra gente nos comentários!
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