Por Ana Lemos/Red.Matriz
Sabe quando você decide reassistir a um filme antigo que não via há muito tempo? Nesse caso, não é difícil encontrar narrativas consideradas problemáticas, pois voltar para o passado significa encarar um novo contexto social onde certas pautas ainda não eram amplamente debatidas nem vistas como relevantes.
Inúmeros filmes possuem falas abertamente racistas, homofóbicas e gordofóbicas… preconceituosas em diversos sentidos, desde Os Aristogatas, animação clássica da Disney, até E o Vento Levou, romance dos anos 30. Por isso, selecionar filmes que envelheceram mal é relativamente simples, o difícil é entender o porquê as críticas são direcionadas a essas histórias e colocar na balança se vale a pena ou não continuar consumindo as obras.
A começar com Meninas Malvadas, um dos filmes mais populares dos anos 2000, aqui, a história acompanha Cady Heron, que cresceu na África e agora volta para os Estados Unidos para fazer o ensino médio, a trama mostra a garota se infiltrando num grupo de patricinhas liderado por Regina George e envolve intensa guerra de popularidade. Apenas nessa sinopse já consigo detectar um problema, a clássica narrativa de rivalidade feminina, mas, para além disso, o filme segue esteriótipos bem definidos para cada personagem, temos um gay afeminado, uma menina que é rotulada como lésbica e é excluída por isso, uma garota loira popular com suas amigas burras, um galã que não leva a culpa por nada e a mocinha que abdica de seus princípios para se “tornar” bonita e popular; temos falas gordofóbicas, sexistas, racistas, tudo que normalmente é encontrado em um filme dos anos 2000. Por mais que esses estereótipos sejam utilizados para fins cômicos, é importante refletir sobre como eles reforçam preconceitos e simplificam grupos inteiros de pessoas. Ainda que o filme permaneça divertido para muitos espectadores, parte do seu humor está diretamente ligada a representações que hoje são vistas de maneira mais crítica.
O próximo da lista é Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida (1981), que acompanha o arqueólogo Indiana Jones na busca da Arca da Aliança, artefato que possui os 10 mandamentos. As principais críticas envolvendo o filme são o fato das representações de culturas e personalidades não ocidentais serem escritas de forma eurocêntrica e estereotipada, servindo apenas para contribuir com a narrativa do “herói americano”. Chega uma hora que isso cansa, né? Outro fator é que alguns fãs, depois de reassistirem o filme, perceberam que, sem Indiana Jones, o roteiro permaneceria o mesmo: os nazistas teriam encontrado a Arca de qualquer forma e ao abri-la, morreriam devido aos eventos sobrenaturais, sem qualquer interferência do protagonista. Embora essa interpretação seja debatida entre os fãs, ela se tornou uma das críticas mais famosas direcionadas ao longa ao longo dos anos. Os demais filmes da saga também possuem falhas no roteiro e na cronologia dos fatos.
E por que não falar sobre um filme brasileiro? Tropa de Elite (2007) acompanha o capitão Nascimento, integrante do BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais), durante operações realizadas em comunidades do Rio de Janeiro. O objetivo principal do filme era expor a corrupção generalizada na segurança pública do Rio de Janeiro e criticar a violência desnecessária de oficiais do BOPE, porém, com o passar dos anos, o que era para ser uma crítica, acabou transformando a figura do Capitão Nascimento em objeto de idolatria, vendo-o como um herói justiceiro e não como uma personalidade duvidosa. A obra foi acusada por romantizar o fascismo e a violência policial, talvez por mostrar apenas as perspectivas dos policiais, levando parte do público a se identificar com os policiais e a enxergar suas ações como justificáveis. O longa-metragem foi produzido como uma obra polissêmica, ou seja, permite diferentes leituras, o que acabou gerando interpretações muito diferentes da intenção original da obra.
O Amor é Cego (2001) talvez seja o exemplo mais comentado da lista, a narrativa deveria ser um romance, mas me parece mais um terror psicológico. Em resumo, o roteiro aborda a história do conquistador Hal Larson que não consegue ver nada além do exterior das mulheres, ao conhecer um guru, Hal começa a ver a beleza interior de todos, assim se apaixonando por Rosie Shanahan, pois ignora seu porte físico. Apesar de possuir momentos cômicos, é acima de tudo sexista e gordofóbico, reforçando a ideia de que pessoas gordas são automaticamente infelizes ou indesejáveis, utilizando o corpo gordo apenas como piada visual e objeto de repulsa. O enredo sugere que um homem só consegue amar uma mulher gorda se estiver sob um feitiço ou se for incapaz de enxergar a realidade, o que minimiza a humanidade, o respeito e a atração real que essas pessoas merecem.
Para finalizar, o filme E o vento levou (1939), já citado anteriormente, se passa nos Estados Unidos durante a Guerra Civil Americana. A trama retrata a trajetória de Scarlett O’Hara, filha de um grande latifundiário, que acaba se envolvendo com o aventureiro Rhett Bultler, vivendo um romance conflituoso. Atualmente, ao assistir em plataformas de streaming, o filme vem acompanhado de um aviso que a obra reproduz comportamentos discriminatórios, mas na época socialmente aceitos. O racismo aqui é retratado como se era visto na época, ou seja, podemos ver um período onde o sul dos Estados Unidos ainda não queria abolir a escravidão, período de segregação racial e de banalização a causas relacionadas a cor. Embora o filme reflita valores presentes em parte da sociedade norte-americana da época, já existiam vozes que questionavam o racismo e a segregação racial. O problema é que a obra romantiza aspectos do sul escravocrata e apresenta personagens negros de maneira estereotipada, o que levou a críticas cada vez mais intensas ao longo das décadas.
Ao analisar essas obras, fica evidente que um filme pode continuar sendo importante para a história do cinema e permanecer na memória afetiva de quem assiste e, ao mesmo tempo, apresentar elementos que envelheceram mal. Reconhecer problemas relacionados ao racismo, à homofobia, ao sexismo ou à gordofobia não significa necessariamente nunca mais assistir a essas produções, mas consumi-las de forma mais crítica e consciente. O contexto histórico ajuda a explicar por que determinadas representações existiam, mas não elimina seus impactos. Revisitar filmes antigos, portanto, também é uma oportunidade de observar como a sociedade mudou e quais debates passaram a ocupar espaço ao longo do tempo.
Depois de tudo o que foi comentado aqui, a discussão segue aberta: qual outra produção clássica você acha que envelheceu mal? E quais filmes, mesmo recentes, já chegaram ao público carregando problemas impossíveis de ignorar?
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