Por Maria Júlia/Red.Matriz
A 6ª edição da pesquisa “Retratos da leitura no Brasil” revelou que nosso país lê muito pouco, cerca de 2 a 4 livros ao ano. Entre os entrevistados, a quantidade de não-leitores foi maioria: apenas 47% disse ter lido um livro ou parte dele nos 3 meses anteriores à pesquisa. O mais preocupante é que a tendência é piorar. Comparado à edição anterior, realizada em 2019, o levantamento atual demonstrou uma queda de 7% na quantidade de leitores. Diante dos números, a primeira e mais fácil opção é culpar o povo por “não gostar de ler”, mas o fato é que é preciso encarar a sociedade mais amplamente para entender que há muitos motivos que levam o brasileiro a desfazer-se da prática. Entre os mais comuns, estão a falta de tempo, a concorrência com as mídias digitais e os preços cada vez mais altos.
O cidadão brasileiro trabalha, em média, 39,2 horas por semana, mas esse número não conta com o tempo gasto no deslocamento até o trabalho, que costuma tomar outras 2h do indivíduo. No total, seriam quase 10 horas vivendo em função do trabalho, além dos cuidados com a casa e a família. Com o dia preenchido dessa forma, não é difícil deitar a cabeça no travesseiro sem ter se debruçado sobre um parágrafo.
Além disso, os hábitos relacionados ao entretenimento digital são grandes vilões da prática de leitura. Enquanto completar uma página lida exige determinado nível de concentração, deslizar o dedo sobre a tela e assistir vídeos curtos e engraçados não demanda tanta energia e costuma ser uma tarefa bem mais atrativa. Nesse sentido, com a rotina cheia e a conveniência dos dispositivos digitais, o indivíduo tende a escolher o que necessita de menos esforço. Em entrevista ao “Jornal Gazeta”, o professor Lucas Amato observou:
“É muito difícil as pessoas terem concentração hoje em dia pra ler um livro ou até um capítulo, né? Porque no celular é tudo muito curto, muito mais rápido.”
Além dos empecilhos relacionados ao tempo curto e à instantaneidade das telas, há também a limitação socioeconômica. Prova disso é que a mesma pesquisa demonstrou que o hábito cresce proporcionalmente à escolaridade e renda e, se por um lado as famílias mais abastadas possuem bons acervos e incentivam as crianças a lerem desde pequenas, por outro, as famílias que se encontram nas classes mais baixas dividem um salário mínimo entre alimentação, contas e moradia, sem deixar sobrar muito para gastar em livrarias. E não somente: o encarecimento dos livros prejudica o acesso à literatura, mas promove também a pirataria. Para aqueles que ainda querem manter a prática, a solução é baixar os textos clandestinamente em sites e grupos online.
Apesar dos tristes dados e das dificuldades que permeiam a realidade dos brasileiros, não se deve perder as esperanças. Para alterar o cenário atual e superar as circunstâncias, o governo lançou recentemente o aplicativo “MEC Livros“, que contém, além de obras em domínio público, obras contemporâneas licenciadas. Ainda que a passos curtos, nem que sejam duas páginas por dia, é preciso lutar contra as distrações e preencher alguns minutos com a leitura. O hábito permite uma melhor visão do mundo, transforma vidas e merece o esforço feito para mantê-lo.
Deixe uma resposta