Por Ane Caroline/Red.Matriz
O BookTok salvou o hábito de ler doa brasileiros? Antes de chegarmos a resposta, vamos dar uma olhada nos números. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, feita em 2024 pelo Instituto Pró-Livro, revelou um dado que ninguém gostaria de ver: pela primeira vez desde que a pesquisa foi criada, em 2007, o quantitativo de pessoas que não leem superou a de leitores no pais. Cerca de 53% dos brasileiros não leram metade de um livro nos três meses anteriores à pesquisa. O Brasil perdeu 6,7 milhões de leitores em quatro anos, contados a partir de 2020.
Observando esse cenário, qualquer movimento que coloque livro na mão de jovens merece atenção. E é aí que o BookTok entra.
Mas o que é o BookTok, afinal?
O BookTok é uma comunidade dentro do TikTok formada por criadores e consumidores de conteúdo sobre livros. Surgiu em 2020, ainda em época de pandemia, quando muita gente procurou um refúgio na leitura e nas conexões virtuais. O que começou como nicho virou fenômeno e explodiu. No ano passado (2025), a hashtag #BookTokBrasil ultrapassou 3 bilhões de visualizações, enquanto o conteúdo literário geral na plataforma somou mais de 12 bilhões de acessos.
E a lógica disso é bem simples: alguém filma a si próprio falando de um livro, com emoção e autenticidade, e isso repercute de um jeito que a resenha tradicional de jornal nunca conseguiu. O “BookToker” (como são chamados quem cria esse conteúdo) não analisa estrutura narrativa. Ele para a câmera e diz: “Eu terminei esse livro às duas da manhã, tremendo e com os olhos vermelhos.” E sabe o que acontece? As pessoas vão correndo comprar para saber o que tem de tão interessante naquele livro que fez aquela pessoa virar a noite lendo.
Os números foram sentidos no mercado
Os efeitos desse movimento vindo do TikTok chegaram às livrarias físicas. Entre 2024 e 2025, o Brasil ganhou 3 milhões de novos leitores, segundo a pesquisa Panorama do Consumo de Livros, feita pela Câmara Brasileira do Livro e tendo como parceira a Nielsen BookData. O pico de crescimento foi registrado entre jovens adultos de 18 a 34 anos, exatamente o público do TikTok, que avançou 3,4 pontos percentuais em relação ao ano anterior.
O estudo BookTok Brasil: uma nova cultura de leitura, publicado pelo Reglab, centro de pesquisas especializado em tecnologia, mídia e regulação, mostrou que a plataforma influencia a visibilidade de títulos nos espaços físicos e na recomendação de vendedores. Um dos livreiros entrevistados no levantamento foi direto. “Quando um livro vira tendência no BookTok, ele some da prateleira”.
Livros que há muito tempo foram esquecidos no fundo do catálogo voltaram às vitrines. Editoras reprimiram títulos anos depois do lançamento. Machado de Assis, por exemplo, voltou a ser best-seller depois que uma criadora de conteúdo americana elogiou suas obras na plataforma. Dom Casmurro ganhou uma hashtag própria e virou ponto de encontro para debates literários. Dostoiévski voltou ao topo das vendas em livrarias visitadas pela pesquisa do Reglab.
A leitura como experiência coletiva
Uma das transformações mais fascinantes que o BookTok trouxe foi tirar a leitura do isolamento. Ler sempre foi uma atividade solitária e a plataforma transformou isso em algo mais compartilhado, comentado e vivenciado junto com uma turma que você nunca vai encontrar pessoalmente.
Dentro do aplicativo, leitores trocam experiências, sugerem leituras leves para quem está numa ressaca literária, compartilham metas e criam desafios coletivos. O clima é de incentivo, não de obrigação. E é exatamente essa leveza que faz diferença em um país onde boa parte das pessoas associa livro a tarefa escolar.
Pedro Ramos, diretor executivo do Reglab, resume bem. “O BookTok funciona como um clube do livro com milhões de pessoas, atingindo principalmente jovens da Geração Z. Um clube onde a entrada é grátis e a única exigência é ter sentido algo ao ler”, diz o diretor.
Mas nem tudo é só otimismo
O movimento também tem seus limites. A lógica do algoritmo do TikTok se concentra atentamente em poucos títulos e gêneros. Romance, fantasia e romantasia dominam o feed. Obras mais densas, calhamaços, autores nacionais menos conhecidos e literatura periférica raramente chegam ao algoritmo de quem descobre o hábito por ali.
Um estudo da Universidade de Liverpool revelou que as recomendações do BookTok são predominantemente de autores brancos, com alguns títulos dominando as listas de forma desproporcional. Isso demonstra vieses algorítmicas que favorecem o que já é popular, dificultando a visibilidade de diversidade.
Também vale citar uma crítica legítima sobre o que o movimento prioriza. O que diferencia o BookTok da crítica literária tradicional é a linguagem sentimental, não técnica. Isso pode ser uma porta de entrada poderosa, mas também pode criar uma geração de consumidores de um nicho específico de livros, não necessariamente de leitores no sentido mais amplo.
Inclusive, existe um risco que o estudo do Reglab aponta. O livro físico virou objeto de desejo por estética. Edições especiais com capa dura, marcadores acoplados e capítulos extras viraram febre porque combinam com a linguagem visual da plataforma. A pergunta que fica é: Parte do que o BookTok vende é leitura ou a estética de ser leitor?
Então, salvou ou não salvou?
A resposta é não. Vou explicar o porquê: O problema é massivamente estrutural para um movimento de rede social resolver sozinho essas questões. A pesquisa Retratos da Leitura mostra o principal fator que dificulta as pessoas a lerem mais livros é a falta de tempo, citada por 55% dos leitores. Além disso, a escola ainda é base principal base para a formação de leitores no Brasil. Esses são problemas que nenhum algoritmo de plataforma consegue solucionar.
Entretanto o BookTok conseguiu realizar algo que política pública e crítica literária não foram capazes por décadas. Converteu o ato de ler em algo que parece interessante de assistir antes mesmo de praticar. Transformou a descoberta de livros em experiência, utilizando do apelo emocional e apelo coletivo. “Ai, lançou tal série em tal plataforma de streaming e eu já li os livros, e nos livros tal cena não é assim como mostra na série”. Isso é um apelo emocional e coletivo, pois existe a parcela que leu antes nos livros e isso democratizou o acesso à indicação literária para jovens que talvez nunca tivessem lido uma resenha num caderno cultural.
Ana Júlia, influenciadora literária que esteve presente na Bienal do Livro de 2025, coloca bem: “O mais importante é tornar a literatura acessível para que as pessoas construam o hábito da leitura e depois procurem diversificar o repertório”. Faz sentido. Ninguém começa a correr fazendo maratona.
O BookTok não salvou a leitura no Brasil, mas contribuiu para que três milhões de pessoas abrissem um livro em 2025. E isso, em um país onde mais da metade da população não é leitora, já conta muito.
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