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Geração “saúde”: produtividade a todo custo

Por Maria Júlia/Red.Matriz

A rotina é a seguinte: acordar às 4h30, ingerir aquela boa dose de pré-treino e creatina, ir à academia, voltar e comer um café da manhã digno de foto nas redes, enquanto toma uma bebida proteica. Em seguida, ir para a faculdade, almoçar menos do que deveria para não consumir tanta caloria, tomar um cafezinho para aguentar o estágio e, chegando em casa, abrir uma lata de energético para suportar passar a noite estudando e dormir às 00h30. Parece até sinônimo de produtividade, exemplo de foco e disciplina típicos de quem tenta equilibrar as coisas e manter-se ativo, mas as demandas dessa rotina excessivamente produtiva estão cobrando um preço caro na saúde dos jovens.

De acordo com dados do Covitel (Inquérito Telefônico de Fatores de Risco para Doenças Crônicas no Brasil), a Gen Z e os Millenials lideram as estatísticas de diagnósticos de ansiedade e depressão no Brasil, ao mesmo tempo em que são as faixas etárias que mais realizam acompanhamento médico para essas condições. O paradoxo aqui evidenciado é exatamente o fato de que essa geração que bebe menos, busca cuidar melhor da saúde, tem amplo acesso à informação e não hesita em procurar apoio psicológico, é também a que mais sofre com transtornos mentais. O problema é que os jovens não estão preocupados em ajustar a mente para viver bem, mas para suportar uma rotina que, biologicamente, o corpo e o coração não têm condições de aguentar por muito tempo.

Para estudar de madrugada, render mais na academia, virar o turno do trabalho, suportar o dia que não cabe mais em 24 horas e viver uma vida de alta performance disfarçada de lifestyle saudável, é preciso apelar para o consumo excessivo de bebidas energéticas e manter o motor funcionando, mesmo quando o combustível já acabou. Dessa forma, uma rotina que aparenta ser saudável e produtiva é, na verdade, altamente prejudicial.

Trabalhe enquanto eles dormem (e infarte antes dos 30)

Dados do Sistema Único de Saúde (SUS) revelam que, entre 2023 e 2024, foram realizados cerca de 234 mil atendimentos por infarto em pessoas com menos de 40 anos. Em comparação com os anos 2000, o número de casos triplicou na faixa de jovens entre 25 e 29 anos. Essa obsessão por resultados e estética, em vez de transformá-los em pessoas verdadeiramente produtivas, está aumentando significativamente os níveis de estresse, promovendo o consumo de suplementos hiperestimulantes e infartando a juventude.

Além disso, a privação de sono também agrava os quadros de saúde. Não adianta de nada estudar, trabalhar e treinar se o sono for sacrificado para esse fim. Noites mal dormidas afetam a capacidade de aprendizado, o desempenho no trabalho e o crescimento dos músculos. Um bom descanso é muito mais vantajoso para a hipertrofia do que altas doses de creatina, pois é durante o sono profundo que o corpo repara as microlesões nas fibras, libera hormônios anabólicos e reduz o cortisol (que, em níveis elevados, destrói a massa magra e prejudica a recuperação). Portanto, até mesmo para produzir, é preciso primeiro estar com o corpo descansado.

E de quem é a culpa?

O problema em si não está na ingestão de energéticos, pré-treinos e suplementos vitamínicos, mas no exagero e na busca por um alto rendimento a partir deles. Apesar de serem potencializadores, não são eles os grandes vilões da causa, mas uma soma de fatores que levam o corpo a extremos. A cultura workaholic (palavra associada ao vício em trabalho), o cenário de competitividade, a instabilidade econômica, a comparação proporcionada pelas redes sociais, a escassez das vagas de emprego e a necessidade de performar bem em todas as áreas da vida, fomentam essa sensação de atraso e urgência por produzir muito e produzir cedo.

Nesse sentido, não dá para culpabilizar um único fator, produto ou costume. Há pessoas que conseguem sim equilibrar a rotina sem cair em exageros, bem como há aqueles que não sustentam tudo o que se propõem a fazer porque cobram de si uma eficiência inalcançável. Não obstante, todas essas realidades estão permeadas pela desigualdade. As horas a mais no transporte público e a preocupação com as contas também pesam no corpo. Diante de um cenário tão exigente, o ambiente desenhado para os jovens brasileiros cobra uma dívida que só o corpo pode pagar.

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